sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"O Pintor de Batalhas" de Arturo Pérez-Reverte



Foi com este livro que me estreei na leitura de Arturo Pérez-Reverte. É provável que estejamos perante o mais autobiográfico dos seus romances, uma vez que antes de se tornar no escritor espanhol mais lido do mundo, Pérez-Reverte foi repórter de guerra.
Trata-se de uma visão crua, amarga e realista da guerra num discurso que em nada nos protege do sofrimento. Mais do que um romance, é uma reflexão intensa e perturbadora acerca de uma realidade que a maioria prefere ignorar. E os efeitos desta leitura permanecem cá dentro a angustiar-nos muito depois de fecharmos o livro.
Mas passemos à sinopse propriamente dita. André Faulques, fotógrafo de guerra durante trinta anos, trocou a máquina fotográfica pelos pincéis e refugiou-se numa torre de vigia do Mediterrâneo. A sua grande obsessão consiste em exprimir num enorme mural o caos do universo, numa tentativa de compreensão da essência humana.
À medida que avançamos na leitura, apercebemo-nos que, apesar de ter presenciado massacres e fotografado moribundos ad nauseum, o personagem ficou sempre indiferente a todo esse horror. E a forma crua com que relata o seu passado chega a impressionar pela ausência de sentimento. Dir-se-ia que viveu como um autómato desumanizado. Mas eis que surge a menção a Olvido... Faulques amou essa mulher e vive ainda assombrado pela sua perda.
Surge então um desconhecido, para grande contrariedade do pintor, que abomina visitas. Só quando este revela a sua identidade, Ivo Markovic sai do anonimato na mente de Faulques. A fotografia que lhe tirara, há muitos anos atrás, e que baptizara de "O rosto da derrota" constituira o seu passaporte para a fama internacional. E em simultâneo destruira a vida do alvo.

"- Chamo-me Ivo Markovic.
- Porque anda à minha procura?
- Porque vou matá-lo.
(...)
- Porquê?
(...)
-  A sua pergunta é de difícil resposta. Depois de anos a matutar, planeando cada passo e cada circunstância, o assunto é mais complexo do que parece. (...) Não posso fazê-lo assim, simplesmente. Preciso que conversemos antes, preciso de o conhecer melhor, de fazer com que também você fique a par de algumas coisas. Quero que saiba e compreenda... Depois, finalmente, poderei matá-lo.
(...)
- Ocorreu-lhe pensar que posso defender-me? (...) Ou que posso fugir?
(...)
- Sei que não fugirá, nem fará nada, por agora. Ficará aqui enquanto conversamos. Um dia, vários... Ainda não sei. Há respostas de que precisa tanto como eu."

Espero que o que escrevi seja suficiente para perceber a magnitude e a complexidade desta obra. É certo que não é perfeita, por vezes pode tornar-se algo repetitiva e mesmo maçadora, sobretudo quando descreve vários quadros famosos. Pode surpreender pela negativa a indiferença gritante com que Faulques desempenhou a sua profissão. E até a calma de Markovic pode por vezes se tornar irritante. Mas penso que o objectivo do autor terá sido mesmo este: de colocar dois homens que desistiram da vida a tentar fazer pulsar o coração por motivações em que já nenhum deles acredita.

domingo, 18 de novembro de 2012

"O Quarto de Jack" de Emma Donoghue


Creio que o facto de ter sido nomeado para tantos prémios torna quase dispensável recomendar a leitura deste livro. Se, no entanto, insisto em fazê-lo, é pela originalidade temática e por ser ternamente relatado por uma criança de 5 anos.
A escritora baseou-se em várias histórias de raptos prolongados para escrever este livro e optou por narrá-lo sobre o ponto de vista inocente de uma criança. Embora escreva romances desde os 23 anos, foi esta obra magistral que a tirou do anonimato.
Michael Cunningham, em poucas palavras, considerou-o "uma raridade, uma completa e original obra de arte". De facto, por mais que se possa escrever sobre o livro, se não o lerem não vão perceber o que estão a perder. E não se admirem se ao longo da leitura sentirem um nó na garganta ou se algumas lágrimas vos turvarem a visão.
Jack é o nome da criança narradora. Nasceu e viveu sempre num quarto. Não sabe que existe um mundo exterior, nem que existem outras pessoas para além da mãe e do Nick Mafarrico, o homem que os mantém reféns.
A descrição ingénua que faz do seu quotidiano, ao mesmo tempo que revela o cativeiro e todas as limitações inerentes, comove-nos por nos mostrar um menino traquilo e mesmo feliz. Aliás, como poderia ele sentir falta daquilo que não sabe que existe?
É no entanto perceptível que, apesar de se esforçar por estabelecer um quotidiano preenchido com brincadeiras e outras actividades que apelam à imaginação, a mãe sente uma frustração e um desespero cada vez maiores. Por considerar que o filho aos 5 anos já pode entender que existe um mundo para além do quarto, tenta em doses crescentes descrever-lhe essa realidade. Esta decisão abala profundamente a visão da vida e do mundo da criança, mas juntos conseguem estabelecer um plano de fuga em que esta desempenha um papel fulcral.
O confronto da criança com "O Espaço Lá Fora", como designa o exterior, e com tantas pessoas, objectos e estímulos desconhecidos, desencadeia uma relação de pânico e instabilidade tal que a faz desejar regressar ao quarto. Só a profunda ligação umbilical com a mãe a vai ajudar a suportar e a transcender este choque, mas não sem antes insistir em voltar "ao seu mundo" para se despedir.
Absolutamente inesquecível, nunca mais conseguimos olhar para o mundo da mesma maneira.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

"A Pomba" de Patrick Süskind


Li este livro pela primeira vez há 20 anos e foi com um prazer renovado que o reli de um só fôlego. E há dois motivos para isso: primeiro, é um livro com pouco mais de 80 páginas que se lê em hora e meia; segundo, o ritmo da escrita é quase alucinatório... ou não fosse a personagem principal um obsessivo-compulsivo de manual psiquiátrico.
Jonathan vive tranquilamente, segundo uma rotina milimétrica, há mais de trinta anos e assim pretende continuar até ao fim dos seus dias. Trabalha como porteiro de um banco de Paris e regressa todas as noites ao seu quarto, no mais profundo isolamento e alienação. Evita qualquer contacto humano e qualquer alteração ao seu monótono quotidiano.
"Dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida".
"E nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa importante a não ser morrer."
A sua vida é no entanto drasticamente virada do avesso quando, numa manhã, ao abrir a porta do seu quarto, se depara com uma pomba...
A história desenrola-se ao longo de um dia apenas, num monólogo enlouquecido, quase delirante, do personagem, que vê o seu mundo ruir como resultado de tão absurda catástrofe...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

À procura da chave


Não está fácil encontrar a chave da arca... Mas eu não desisto de a procurar, afinal há no seu interior um mundo de livros à espera de se revelarem.