Trata-se de uma visão crua, amarga e realista da guerra num discurso que em nada nos protege do sofrimento. Mais do que um romance, é uma reflexão intensa e perturbadora acerca de uma realidade que a maioria prefere ignorar. E os efeitos desta leitura permanecem cá dentro a angustiar-nos muito depois de fecharmos o livro.
Mas passemos à sinopse propriamente dita. André Faulques, fotógrafo de guerra durante trinta anos, trocou a máquina fotográfica pelos pincéis e refugiou-se numa torre de vigia do Mediterrâneo. A sua grande obsessão consiste em exprimir num enorme mural o caos do universo, numa tentativa de compreensão da essência humana.
À medida que avançamos na leitura, apercebemo-nos que, apesar de ter presenciado massacres e fotografado moribundos ad nauseum, o personagem ficou sempre indiferente a todo esse horror. E a forma crua com que relata o seu passado chega a impressionar pela ausência de sentimento. Dir-se-ia que viveu como um autómato desumanizado. Mas eis que surge a menção a Olvido... Faulques amou essa mulher e vive ainda assombrado pela sua perda.
Surge então um desconhecido, para grande contrariedade do pintor, que abomina visitas. Só quando este revela a sua identidade, Ivo Markovic sai do anonimato na mente de Faulques. A fotografia que lhe tirara, há muitos anos atrás, e que baptizara de "O rosto da derrota" constituira o seu passaporte para a fama internacional. E em simultâneo destruira a vida do alvo.
"- Chamo-me Ivo Markovic.
- Porque anda à minha procura?
- Porque vou matá-lo.
(...)
- Porquê?
(...)
- A sua pergunta é de difícil resposta. Depois de anos a matutar, planeando cada passo e cada circunstância, o assunto é mais complexo do que parece. (...) Não posso fazê-lo assim, simplesmente. Preciso que conversemos antes, preciso de o conhecer melhor, de fazer com que também você fique a par de algumas coisas. Quero que saiba e compreenda... Depois, finalmente, poderei matá-lo.
(...)
- Ocorreu-lhe pensar que posso defender-me? (...) Ou que posso fugir?
(...)
- Sei que não fugirá, nem fará nada, por agora. Ficará aqui enquanto conversamos. Um dia, vários... Ainda não sei. Há respostas de que precisa tanto como eu."
Espero que o que escrevi seja suficiente para perceber a magnitude e a complexidade desta obra. É certo que não é perfeita, por vezes pode tornar-se algo repetitiva e mesmo maçadora, sobretudo quando descreve vários quadros famosos. Pode surpreender pela negativa a indiferença gritante com que Faulques desempenhou a sua profissão. E até a calma de Markovic pode por vezes se tornar irritante. Mas penso que o objectivo do autor terá sido mesmo este: de colocar dois homens que desistiram da vida a tentar fazer pulsar o coração por motivações em que já nenhum deles acredita.



