domingo, 18 de novembro de 2012

"O Quarto de Jack" de Emma Donoghue


Creio que o facto de ter sido nomeado para tantos prémios torna quase dispensável recomendar a leitura deste livro. Se, no entanto, insisto em fazê-lo, é pela originalidade temática e por ser ternamente relatado por uma criança de 5 anos.
A escritora baseou-se em várias histórias de raptos prolongados para escrever este livro e optou por narrá-lo sobre o ponto de vista inocente de uma criança. Embora escreva romances desde os 23 anos, foi esta obra magistral que a tirou do anonimato.
Michael Cunningham, em poucas palavras, considerou-o "uma raridade, uma completa e original obra de arte". De facto, por mais que se possa escrever sobre o livro, se não o lerem não vão perceber o que estão a perder. E não se admirem se ao longo da leitura sentirem um nó na garganta ou se algumas lágrimas vos turvarem a visão.
Jack é o nome da criança narradora. Nasceu e viveu sempre num quarto. Não sabe que existe um mundo exterior, nem que existem outras pessoas para além da mãe e do Nick Mafarrico, o homem que os mantém reféns.
A descrição ingénua que faz do seu quotidiano, ao mesmo tempo que revela o cativeiro e todas as limitações inerentes, comove-nos por nos mostrar um menino traquilo e mesmo feliz. Aliás, como poderia ele sentir falta daquilo que não sabe que existe?
É no entanto perceptível que, apesar de se esforçar por estabelecer um quotidiano preenchido com brincadeiras e outras actividades que apelam à imaginação, a mãe sente uma frustração e um desespero cada vez maiores. Por considerar que o filho aos 5 anos já pode entender que existe um mundo para além do quarto, tenta em doses crescentes descrever-lhe essa realidade. Esta decisão abala profundamente a visão da vida e do mundo da criança, mas juntos conseguem estabelecer um plano de fuga em que esta desempenha um papel fulcral.
O confronto da criança com "O Espaço Lá Fora", como designa o exterior, e com tantas pessoas, objectos e estímulos desconhecidos, desencadeia uma relação de pânico e instabilidade tal que a faz desejar regressar ao quarto. Só a profunda ligação umbilical com a mãe a vai ajudar a suportar e a transcender este choque, mas não sem antes insistir em voltar "ao seu mundo" para se despedir.
Absolutamente inesquecível, nunca mais conseguimos olhar para o mundo da mesma maneira.

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